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Lá se vão 29 anos! Na corrida do título de Senna, Capelli protagonizou momentos inesquecíveis

31/10/2017 - 14:49 - Automobilismo

por Flávio Figueiredo

A McLaren teve uma temporada quase perfeita em 1988. Com os formidáveis Ayrton Senna e Alain Prost, a escuderia de Ron Dennis registrou uma hegemonia única na Fórmula 1. O brasileiro ficou com o título, e o francês, com o vice, após vencerem 15 das 16 provas do calendário. Apenas o GP da Itália, em Monza, não teve um ‘McLaren Boy’ no topo do pódio – aquele triunfo caiu no colo de Gerhard Berger (Ferrari). Das 1.031 voltas completadas naquele ano, a dupla dinâmica liderou impressionantes 1.003 (97,2% do total!), sendo 553 com Senna e 450 com Prost. Berger ficou à frente por 27 passagens. Apenas uma delas não foi liderada pelo trio que venceu corridas na temporada: no GP do Japão, disputado em 30 de outubro daquele ano, Ivan Capelli (March) fechou a volta 16 em primeiro lugar em Suzuka.

Foi uma liderança efêmera, porém histórica. Depois de mais de cinco anos, um carro equipado com motor aspirado voltava a pontear na categoria máxima do automobilismo. Com seu March impulsionado por um propulsor Judd, Capelli colocava um aspirado à frente em plena era dos poderosos turbo. Desde o GP dos Estados Unidos-Leste de 1983, quando Michele Alboreto (Tyrrell) venceu em Detroit com um motor Ford-Cosworth, esse cenário não ocorria. O feito também foi especial para Ivan, que pela primeira vez liderou uma corrida. A façanha da volta 16, contudo, se transformou em decepção três voltas depois, quando Capelli abandonou a corrida.

Estar à frente em uma etapa de 1988 coroou a temporada do italiano e da March. Quando desembarcou em Suzuka, Ivan tinha 14 pontos. Destaque para o segundo lugar no GP de Portugal, no Estoril, quando Capelli deixou Senna para trás e conquistou seu primeiro pódio na carreira – no GP da Bélgica, em Spa-Francorchamps, Ivan terminou em quinto, mas foi beneficiado com a desclassificação da dupla da Benetton, Thierry Boutsen e Alessandro Nannini, herdando o terceiro lugar apenas após o fim da temporada. Enquanto isso, seu companheiro na escuderia azul, o calouro brasileiro Mauricio Gugelmin, estava com 5 pontos. Com 19 pontos, a March ocupava a quinta posição no Mundial de Construtores, à frente de times como Lotus e Williams.

O sucesso do time inglês em 1988 era facilmente explicado. E ele tinha nome e sobrenome. Adrian Newey tinha sido contratado e logo impôs sua condição de ‘mago dos projetos’. Seu conceito para o modelo 881 incluiu um bico curvo, que simulava o efeito de asa invertida e aumentava a estabilidade em altas velocidades. Em resumo: na década de 1980, havia um projeto que ditaria os rumos da Fórmula 1 na década de 1990. O 881 tinha os predicados ideais para ter um bom desempenho em Suzuka, palco do GP do Japão. Na sexta, no primeiro treino oficial, Capelli logo se colocou entre os cinco primeiros. Com 1m44s583, o italiano só foi superado por Senna, Berger, Prost e Nigel Mansell (Williams). Na sessão de sábado, Ivan melhorou em quase 1s seu tempo. No fim, ficou com o 4º lugar no grid, após anotar 1m43s605, a 1s752 de Senna, o pole para a etapa japonesa.

A corrida

Os olhares de Suzuka naquele domingo, 30 de outubro de 1988, giravam entre Ayrton Senna (McLaren) e Alain Prost (McLaren). Também pudera: a dupla disputava palmo a palmo o título daquela temporada. Quando a luz verde foi acionada, porém, Senna ficou parado no grid, caindo para uma terrível 14ª posição. Alheio ao problema do brasileiro, Capelli arrancou para contornar a Curva 1 em terceiro. A partir daí, Ivan iniciou perseguição para tirar a segunda colocação de Gerhard Berger (Ferrari). Apesar do forte motor Ferrari, o italiano, com seu March-Judd, acompanhava o ritmo do austríaco. Quando recebeu a informação de que Senna estava em quarto e vinha sedento por recuperação, na volta 4, Capelli tratou de partir para cima de Berger. Numa bela manobra, Ivan colou em Gerhard, tirou de lado e ignorou o ferrarista, assumindo o segundo lugar na volta 6.

Sem Berger à frente, o piloto da March passou a voar em Suzuka. A ponto de, incrivelmente, tirar diferença em relação ao líder Prost. Além disso, viu Gerhard segurar Ayrton na disputa pelo terceiro lugar. Dessa forma, Capelli pôde se preocupar em alcançar Alain. Quando o brasileiro da McLaren ultrapassou o austríaco da Ferrari, na volta 11, Senna se viu a 12 segundos de Capelli e Prost. Nitidamente mais rápido que o francês da McLaren, o italiano da March acompanhava o líder com mais ação no trecho sinuoso do circuito. Entretanto, quando se aproximava dos pontos de ultrapassagem, o motor Honda turbo de Alain se impunha sobre o propulsor Judd aspirado de Ivan.

A situação de Prost na prova piorou com o início de uma fina garoa sobre Suzuka. Capelli literalmente grudou no francês. Na volta 16, Aguri Suzuki (Lola), um estreante japonês, rodou na saída da chicane. Alain se atrapalhou com a presença do nipônico e errou na troca de marchas. O McLaren MP4/4 do gaulês patinou. Era a chance que Ivan tanto esperava. Com mais tração, o italiano da March acelerou tudo o que podia, colocando-se à frente do adversário. Na linha de chegada, o célebre momento: Capelli liderava o GP do Japão de 1988, seguido por Prost e Senna. O momento durou alguns segundos. Logo depois de ter sido superado, Alain utilizou o turbo do seu Honda e deu o troco em Ivan na freada da Curva 1, retomando a ponta.

O italiano da March ainda insistiu em pressionar o francês da McLaren. Enquanto a animada disputa pela liderança prosseguia, Senna reduziu toda a diferença, e já tinha os dois em sua alça de mira. Quando o mundo já imaginava o que Ayrton teria que fazer para tirar Ivan do caminho, a March deu uma resposta definitiva: na volta 19, Capelli abandonou a corrida. Oficialmente, o motivo que levou o italiano a deixar a prova foi um problema elétrico em seu 881. Entretanto, de acordo com o livro “Uma Estrela Chamada Senna”, de Lemyr Martins, Ivan teria usado pouco combustível e pneus macios em Suzuka, a fim de convencer a Leyton House – a principal patrocinadora da March -, a prosseguir apoiando o time. Sediada no Japão, a marca ficou extremamente satisfeita com o desempenho de Capelli, a ponto de, tempos depois, comprar o espólio da escuderia.

Em entrevista concedida em agosto de 2014 ao site RichardsF1.com, do australiano Richard Bailey, Ivan lembrou como foi aquele momento no GP do Japão de 1988. Contudo, sequer citou a ‘manobra’ para persuadir a Leyton House. “Foi incrível a forma como fomos capazes de liderar em Suzuka. Aquela volta (a 16ª do GP do Japão de 1988) foi a primeira liderada por um carro não-turbo depois de muitos anos. Muito do crédito daquela façanha se deve a Adrian Newey. Poderíamos ver imediatamente que ele era um gênio”, afirmou Capelli, dividindo os louros do feito com o então projetista da March. Ivan não venceu aquela prova – Senna ficou com a vitória e o título de 1988, seguido por Prost e Thierry Boutsen (Benetton) -, mas deixou Suzuka com a certeza de que cumpriu seu papel à risca.

*Fonte: Contos da F1

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